Uma ensolarada e quente manhã libanesa de 17 de julho de 2015, festa da Virgem do Carmo – para mim um dia inesquecível de graças: nosso grupo de peregrinos pisaria a terra santa de Annaya; estaríamos em breve no convento e no eremitério do humilde monge São Charbel, já familiar a nós. A véspera foi de expectativa, ansiedade e provação – pois que alguma reação ao calor (e aos temperos locais!) deixara a mim e alguns do grupo muito indispostos. Olhei no espelho e pedi a São Charbel que o mal-estar não me impedisse a tão sonhada subida a Annaya – ele atendeu – sem dúvida! Imediatamente – mas restou alguma coisa de incômodo para que eu não confiasse senão na força da graça.
Ao subir a colina do eremitério onde vivera o santo monge lavrador, pareceu-me não mais estar em mim – algo me forçava a subir, não obstante os quase quarenta graus do verão libanês que naquele dia se mostrava impiedoso. E pensar que aquilo tudo ganha uma espessa cobertura de neve no inverno! Sim o santo eremita subira por ali vindo do convento de São Maron de Annaya, poucas centenas de metros abaixo, ansiando pelo céu na terra. Até as árvores e pedras pareciam participar daquele convidativo silêncio, atraente até mesmo para os peregrinos mais agitados que insistiam em conversar mas que iam aos poucos aquietando-se. Era compreensível que além da lembrança no coração, todos quisessem levar uma prova para os olhos: uma foto seria inevitável – eu também o desejava!
Eis que no topo da colina a visão dos cedros jovens rodeando a rústica ermida convidava à meditação sobre a pequenez do ser humano diante do amor de Deus. Senti uma lufada de incenso, forte, límpido, mas fugaz; não era o aroma dos cedros, que também,no entanto, se sentia – era “bahur” mesmo. É verdade que estava ocorrendo uma missa no interior da capela do eremitério – mas não vi oferta de incenso por lá. De onde viera então aquele perfume? Comentando posteriormente com alguém do grupo, tive uma resposta desconcertante: do paraíso! Ali São Charbel experimentou a eternidade, no trabalho, na oração, no autodomínio, no amor a Deus acima de todas as coisas. Sim – de fato aquele perfume e aquele silêncio somente podiam vir da eternidade.
Entrar nos cômodos santificados por vários eremitas que viveram ali ao longo de vários séculos, entre os quais nosso Padre Charbel – foi um privilégio muito grande. Confesso que valeu por um retiro espiritual; ver a minúscula capela onde São Charbel oferecia diariamente - longamente, intensamente, piedosamente, o sacrifício do Senhor; o refeitório para as suas parcas refeições, a cela onde dormia por exíguas horas, o quarto onde morrera na noite do Natal.... A pobreza do local expressa uma beleza que só pode vir do infinito. Ali São Charbel tinha encontrado o único necessário, a melhor parte que não lhe seria tirada.
Depois descemos para o convento, onde está o túmulo de São Charbel (isso fica para ao próximo número).
Mas Deus foi tão generoso que me permitiu voltar ali mais uma vez: no dia 23 de julho, quando se comemora a ordenação sacerdotal de São Charbel sem planejamento prévio, acompanhado pelo meu caro amigo Padre Michel Sakr, cuja paróquia é próxima a Annaya. Puder rever aqueles lugares sagrados, calmamente; uma doce e imerecida surpresa para mim e para Dona Flora, nossa amiga que serve ao bispado maronita como mãe dos padres.
Confesso que as palavras não conseguem traduzir quase nada do que experienciei ali.
Pôr-do-sol a partir do eremitério de annaya
Subida ao eremitério de Annaya
Imagem de São Charbel exposta à entrada do quarto onde ele morreu
Cedros ao redor da ermida
Capela interna do eremitério onde São Charbel celebrava